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    2023 · 1º semestre — Burnout ganha atenção regulatória

    Com o burnout oficialmente classificado como doença ocupacional pela CID-11, o primeiro semestre de 2023 viu um salto de atestados e uma nova onda de discussões sobre saúde mental no trabalho.

    2023 · 1º semestre — Burnout ganha atenção regulatória

    Contexto do semestre

    O primeiro semestre de 2023 foi marcado por uma virada regulatória: a CID-11 entrou em vigor no Brasil e passou a classificar o burnout como doença ocupacional. Na prática, isso significa que o esgotamento causado pelo trabalho ganhou base médica e jurídica para virar afastamento, indenização e até mudança de contrato coletivo.

    Ao mesmo tempo, o consumo de medicamentos psiquiátricos atingiu marcas históricas. Farmácias relataram desabastecimento pontual de antidepressivos e ansiolíticos em algumas regiões — reflexo de uma demanda que cresceu mais rápido que a rede de atendimento psicoterápico.

    Números-chave do semestre

    +38%

    Aumento de atestados por burnout em relação a 2022

    Fonte: Isma-BR

    44%

    Profissionais que se declararam em burnout

    amostra de mais de 3 mil trabalhadores

    Fonte: Isma-BR (2023)

    3,3 milhões

    Ligações ao CVV em 2022 (base 2023)

    Fonte: CVV

    9,7%

    Adultos com uso frequente de ansiolíticos

    Fonte: Vigitel 2023

    O que os dados de tendência mostram

    O gráfico mostra duas curvas paralelas subindo juntas: ansiolíticos saíram de 6,4% para 9,7% da população adulta em quatro anos, enquanto antidepressivos passaram de 4,9% para 7,3%. É uma alta de cerca de 50% em ambos os grupos, muito acima do crescimento populacional.

    Essa disparada não significa, sozinha, que o país esteja mais doente — parte reflete redução do estigma e mais diagnósticos. Mas o descompasso entre prescrição e disponibilidade de terapia é um dado preocupante: medicamento sem acompanhamento psicológico costuma reduzir sintoma, não resolver a causa.

    Uso de ansiolíticos e antidepressivos no Brasil

    Unidade: % da população adulta

    Fatores mais associados ao burnout (2023)

    Unidade: % das respostas

    Lendo a distribuição

    Entre os fatores associados ao burnout, sobrecarga (68%) e liderança tóxica (47%) formam a dupla dominante. Isso desloca a narrativa de 'resiliência individual' para 'ambiente organizacional' — o problema deixou de ser 'o profissional não aguenta' para virar 'a estrutura adoece as pessoas'.

    Falta de reconhecimento (41%) e insegurança financeira (33%) reforçam que o burnout brasileiro tem componente cultural e econômico específico: em um país com alta rotatividade e informalidade, o medo de perder o trabalho vira combustível para se submeter a condições insustentáveis.

    Destaques do semestre

    Reflexão de fechamento

    O semestre fechou com um dado silencioso, mas decisivo: contratos B2B de psicoterapia cresceram 60%. Grandes empresas passaram a oferecer sessões pagas como benefício — um movimento que, se bem regulado, pode democratizar o acesso; se mal desenhado, corre o risco de virar apenas 'higienização emocional' sem tocar nas causas do adoecimento.

    Fontes consultadas

    Quando não há divulgação semestral, os valores são estimados a partir das séries anuais publicadas pelas fontes acima. Números arredondados para facilitar a leitura.

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