No segundo semestre de 2022, o Brasil consolidou-se como o país com maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo segundo a OMS. Insônia e burnout ganharam espaço nos consultórios.

O segundo semestre de 2022 foi o momento em que o Brasil recebeu um selo que ninguém queria: segundo o World Mental Health Report da OMS, o país passou a liderar o ranking mundial de prevalência de transtornos de ansiedade. Não é apenas um dado epidemiológico — é um espelho da nossa cultura de urgência, insegurança econômica e hiperconexão.
Enquanto o mundo pós-pandemia tentava recompor rotinas, o trabalhador brasileiro enfrentava jornadas mais longas, retorno forçado ao presencial e pressão por produtividade acumulada. Foi o semestre em que o burnout deixou de ser jargão corporativo e virou pauta médica e jurídica.
1º lugar
Brasil no ranking mundial de ansiedade
Fonte: OMS (2022)
≈ 30%
Trabalhadores com transtornos mentais comuns
Fonte: Revisão sistemática – SciELO
209 mil
Afastamentos por transtornos mentais (INSS)
3ª maior causa de auxílio-doença
Fonte: INSS – Anuário 2022
18%
Adolescentes com sintomas de ansiedade
Fonte: UNICEF – Estado Mundial da Infância
O gráfico do INSS revela um fenômeno curioso: 2020 foi o pico absoluto de afastamentos por transtornos mentais (285 mil), com queda em 2021 e leve retomada em 2022. A queda não representa melhora — reflete o medo do desemprego durante a crise, que fez muitos trabalhadores 'seguir empurrando' sem se afastar.
Em 2022, com o mercado reaquecido, essas pessoas finalmente buscaram atestado. O número de 209 mil concessões colocou os transtornos mentais como a terceira maior causa de auxílio-doença no Brasil — atrás apenas de lesões e doenças osteomusculares.
Unidade: mil concessões/ano
Unidade: % do total de afastamentos por saúde mental
A distribuição por diagnóstico mostra que depressão (36%) e ansiedade (32%) juntas respondem por mais de dois terços dos afastamentos. É uma inversão do que se via na década passada, quando doenças cardiovasculares e ortopédicas dominavam essas planilhas.
O crescimento de estresse/burnout (15%) tem um significado histórico: pela primeira vez, uma condição diretamente ligada ao ambiente de trabalho aparece com peso próprio, criando pressão para que empresas discutam cultura organizacional, e não apenas produtividade.
O semestre termina com sinal de mudança cultural: adolescentes começaram a aparecer com força nos dados (UNICEF apontou 18% com sintomas ansiosos), a psicoterapia online superou a presencial em capitais e RHs passaram a incluir métricas de bem-estar em relatórios trimestrais. A saúde mental deixou de ser 'benefício extra' para virar indicador estratégico.
Quando não há divulgação semestral, os valores são estimados a partir das séries anuais publicadas pelas fontes acima. Números arredondados para facilitar a leitura.
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